terça-feira, 12 de abril de 2011

Xamanismo, Bruxaria, Magia - 5ª parte

Estivemos nestes artigos anteriores abordando aspectos importantes destes caminhos. Hoje gostaria de comentar um dos aspectos mais importantes, uma das diferenças mais fundamentais que existe entre esses caminhos e tantos outros do chamado misticismo.

O conceito de Divindade.

É muito importante, a meu ver, percebermos como o conceito que temos de divindade interfere muito na forma de sentirmos e percebermos o mundo.

Recebemos uma educação religiosa vinda do meio onde fomos criados, isso acontece numa fase bem imatura da percepção. Na maior parte das vezes aprendemos a identificar conceitos complexos como inicio, criadores, poderes primordiais com projeções de nossas carências e medos.

Na maior parte de nós os conceitos religiosos vieram de nossos pais e a igreja a qual estavam ligados. Mas esses conceitos têm uma historicidade, foram gerados por situações diversas, por grupos que em sua luta pelo poder não tiveram receio de alterar e deturpar conhecimentos, desde que continuassem no poder.

Estes dados são importantes para melhor compreendermos o deus único, que é tido como evolução quando os uga-uga primitivos deixaram de ser politeístas e evoluíram para o nível monoteísta. Será real isso? Os povos ancestrais sentiam a divindade em tudo, suas várias faces, na chuva, no vento, no trovão, na Terra que dá o alimento, no Sol, na Lua, era o um manifesto no múltiplo.

É muito importante compreender isso, pelos meus estudos e contatos com tradições nativas tenho notado que o saber ancestral se manifesta em matrizes com muitas dimensões, então podemos ter um povo que tem um conhecimento em comparação com o nosso, menos sofisticado em alguns aspectos, como os Maias que não usaram as rodas, mas que em outros níveis podem extrapolar muitos de nossos limites, como os já citados Maias e sua matemática com nove dimensões , seus calendários exatos e tudo mais.

Assim o conceito de divindade nos povos ancestrais era bem amplo e variado, não podemos limitar o pouco que sabemos das crenças de algumas partes da população como o todo da forma de lidar com tais realidades, por parte desses povos. O cidadão simples, o comerciante, o homem e a mulher do povo egípcio com certeza tinham uma concepção da divindade bem diferente dos sacerdotes e sacerdotisas dos templos e das escolas iniciáticas que ali existiam.

Da mesma forma entre todos os povos vamos ter o exoterismo religioso, as crenças e cultos de domínio público e o esoterismo, reservado a quem fosse iniciado nos mistérios. Os povos ancestrais lidavam com as várias faces da ETernidade, em suas multiplas manifestações. Mas pegar um deus tribal de um povo e elegê-lo deus único é evolução? Um deus único que sendo de fora da terra, a regendo de fora não inspira nenhuma atitude ecológica ou equilibrada, coisa que acontece com os povos nativos e suas superstições. Quando falamos deus o conceito de deus é algo muito complexo. Quando falamos de um deus criador estamos num paradigma e em minhas investigações sobre estes caminhos que estamos estudando encontrei um conceito diferente, uma forma de falar da ETERNIDADE sem limitá-la a padrões antropomórficos ou fazer da mesma uma tela onde projetamos carências e medos.

Ao invés de um deus que cria, de fora, depois cria testes além da capacidade dos testados e depois os castiga, os deixa confusos, ao invés de uma família primordial onde o homem é um fraco, a mulher é uma que vai atrás da primeira serpente que aparece, um filho é assassino e tudo dá tão errado que destrói tudo e começa de novo, existem outras histórias de como o mundo veio a ser o que é .

Existem cosmogonias, antropogêneses e cosmogêneses que abordam outras possibilidades, um universo que emana, que surge de uma outra realidade pré-existente, num ciclo infindável. É interessante observar que quanto mais avança a astrofísica e a física de partículas, mais as visões de realidade que surgem dos experimentos realizados, são similares as visões dos antigos mitos, dos povos ancestrais e pouco relacionadas com as histórias moralistas que nos ensinaram na religião oficial. Um só deus, uma só verdade, um só rei , foram argumentos sempre usados pelos tiranos de várias épocas.

Perceber isso é perceber que a abordagem religiosa da realidade tal qual a concebemos hoje está ligada a conversão, basta ver o fervor com que vários homens e mulheres matam outros em vários países do mundo em nome de suas crenças. Interessante a intolerância religiosa, ela não admite a diversidade, todos devem se reduzir a uma nauseante homogeneidade. Como se as células do fígado resolvessem converter as células do coração a serem como elas e depois de cumprida sua missão teríamos um corpo com dois fígados, mas que morreria em seguida, sem o coração que bombearia o sangue.

Esses são os perigos da conversão, o fato de surgir de povos gananciosos e desrespeitar o fato que a diversidade sempre foi necessária à vida. Somos seres que fazemos parte de um vasto esquema cósmico. Estamos na periferia da galáxia, estamos num lugar que indica que somos novos e imaturos se comparados com formas de vida que já se desenvolveram bilhões de anos antes de nós. Mas temos nosso papel.

Assim o que julgo errado e fora de propósito para mim, pode ser justamente o papel que outra pessoa deve desempenhar. Este é um perigo dos pseudos agrupamentos iniciáticos, a vontade caprichosa de um (a) pseudo líder é seguida, isto falseia tudo. O trabalho de um grupo é que cada um desperte sua essência que se torne o mais profundamente o que trás em seu interior, quem auxilia nisso deve agir como um jardineiro, ajudar a desabrochar, nunca impor seus próprios modos.

Essa diferença sutil nos leva ao cerne deste trabalho: A concepção de divindade. Se imponho a quem aprende minha forma de perceber este algo transcendente que de fato existe, vou estar limitando a um conceito, a um dado informacional, mas se crio situações para que quem aprende vivencie por si mesmo então teremos outro tipo de aprendizado. Por isso é difícil colocar em palavras o que vai além das palavras. Palavras vêm do racional, do arquivo da memória, do já vivido. E o novo é não vivido, tem que surgir pela experiência. Assim, cientes da limitação das palavras, da sintaxe, vamos ainda assim abordar o fato que a percepção da divindade e da vida por parte dos caminhos naturais, dos caminhos pagãos, dos caminhos mágicos obedece a outra profundidade.

Temos quando crianças, sempre a presença de um adulto por perto. Qualquer perigo e um adulto virá nos proteger, nos salvar. Ao crescermos descobrimos que tal salvamento é relativo e papai e mamãe são crianças como você. Isso muda tudo e surge uma carência aí, que grande parte ao invés de superar extrapola e cria um papai do céu e uma mamãe do céu . Os messianismos diversos tem aí uma de suas raízes, a crença que alguém lá fora virá nos salvar.

Para grande parte das pessoas é isso a divindade, uma transferência dos sentimentos confusos da relação com pai e mãe para uma pretensa entidade cósmica que nos criou e pode nos julgar, ajudar ou castigar.

Esta relação imatura com a realidade é ampla e notável nas religiões não pagãs, que centralizam seu poder numa divindade fora do mundo e temível. A divindade sempre existe, cria um mundo, cria os humanos, a sua imagem e semelhança. Não seria mais correto dizer que os seres humanos criaram um deus a sua imagem e semelhança?

A Bruxaria, a Magia e o Xamanismo aos quais me refiro não estão nessa linha. Tem a noção de seres, de forças, de entes, de poderes que vivem neste mundo e nos mundos além desse, mas mesmo os mais poderosos, são nitidamente entes, que podem parecer deuses e deusas, mas mesmo na proporção de uma estrela para uma vela não precisamos adorá-los, ou crer que os servindo vamos ter tudo resolvido.

Os deuses e deusas são entes amplos, podemos fazer parte deles, podemos ser como células das vastas realidades que eles e elas compõe, mas em todos os níveis são seres com começo e fim, entes que também brotaram em um certo momento da existência e vão chegar a um fim um dia. Como nós.

A DIVINDADE em seu sentido mais amplo é algo que extrapola a compreensão, é para ser sentida diretamente, experiência direta do numinoso, do que vai além do conceitual.

Por isso ao sentir a força de uma árvore, de uma montanha, de um rio ou do vento e expressar isso como divindades, com suas particularidades não pode ser confundida com uma abordagem supersticiosa da realidade.

Rezar com medo para deuses e deusas numa tempestade é diferente da postura pagã de reconhecer nestas forças se manifestando facetas da Amplitude e buscar encantar tais poderes.

A relação que temos conosco mesmo, a relação que temos com as outras pessoas, a relação que temos com o mundo circundante, tudo isso está envolto em nosso conceito de divindade. É interessante meditar sobre isso, perceber se ainda temos uma relação de pai psicológico ou mãe psicológica com a ETERNIDADE, se continuamos apenas projetando carências ou estamos mesmo começando a ir além dos medos que nos plantaram e ousando sentir a ETERNIDADE em toda sua incompreensível vastidão.

Para mergulharmos mais fundo nos temas Bruxaria, Magia e Xamanismo precisamos compreender que estes caminhos abordam a questão da Vida, da Divindade, de ter uma alma, de conseguirmos nos eternizar, tudo isso com outros paradigmas e não podemos cair no erro da moda esotérica em voga que pega os mesmos temas já gastos e nitidamente ineficazes e os fantasia com outras roupagens. Pecado agora é carma, outras vidas substitui céu e inferno, os ascensionados são os novos santos e ministros de deus e por aí vai.

Se ficarmos presos aos conceitos estereotipados nascidos durante esta era de dominação vai sempre nos escapar o sentido profundo dos caminhos que estamos estudando. Creio que isto é um fato muito importante, temos que ir além da sintaxe imposta pelo mundo atual, isto não é fácil, nem simples, mas pode ser feito.

A prior prisão das muitas que nos deram neste mundo, é a perceptiva, sermos obrigados a concordar e participar de um só tipo de realidade, com variações de interpretaçòes subjetivas, mas normatizada e linearizada em várias estâncias.

Então questionar profundamente os pretensos dogmas, mesmo dos esoterismos de plantão é não só um hábito saudável como necessário, questionar, questionar tudo e buscar uma nova resposta.

O que eu tenho percebido até aqui é que o Xamanismo, a Magia e a Bruxaria não te dão respostas prontas, te ensinam a fazer melhores perguntas.

Nuvem que passa
Extraído do Pistas do Caminho
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